Perco todos os dias um fio de cabelo
Percorro os dedos pelo pescoço e cada vez mais encontro caroços
Enrosco-me no meu próprio corpo...
Retorço-me e contorço expurgando a dor
Fixo na parede as unhas, arranho as rasuras.
Entrego-me ao espelho
Perfuro meu corpo contra aos estilhaços
Derramo meu sangue
Mancho meu rosto, desfiguro meu peito.
Desenho com a língua entrecortada os nomes de muitas pessoas
Deito no parapeito e vejo o chão
Esparrama-se nele meu sangue, minha lágrima e pedaços de meu corpo.
Estou doente e ninguém sabe
Nem mesmo eu sei qual dor me enfraquece mais
Estou com chagas no rasgo do peito e na essência da alma
Choro fel, choro azedo e fedo a enxofre.
Depilo toda minha pele e cubro com ela minha vergonha
Já cortei as pontas dos dedos e joguei fora
Quero perder o tato, o senso de ser sensato.
Tatuei em meus olhos um belo peixe mergulhando no oceano escuro
Pois quero perder de vez a direção, não quero ver a verdade impregnada em minhas coxas.
Quero gritar bem alto até estourar meus tímpanos a verdade crua do meu sexo
Quero descobrir por onde anda aquele fio de lembrança que insiste em ficar
Quero dilacerar minha consciência estourando minha cabeça na lata de lixo
Beijo a planta do meu pé assim me humilho até o pó da terra
Pois mais baixo já não posso estar
Um único fio de cabelo ainda resta, se desespera e se entrega!
A vida nada mais é que um estupro inevitável que a gente tem que parir
E este é o asco que sinto, porque estou vivo.
E isto já é o suficiente para perceber que não mereço
Não mereço estar por entre essas ruas escuras
Por essa casa velha, tábuas carcomidas.
Estou morto ha muito tempo
Cada réstia de sol decompõe o gosto de cada beijo.
E o vento espalha todas as mãos que me tocaram
E os vermes comem os sexos de todos que me dilaceraram
Minha entranha se emaranha nas raízes tortas do Ipê amarelo
E adormeço para sempre acorrentado no meu cotidiano pesadelo eterno...
Para eu simples e breve como o lance certeiro do veneno da serpente
Para você a complexidade excêntrica da morte das borboletas...
Sem data - Mas como um stigma me assola nesta segunda tais palavras aqui escritas a tempos passados.

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